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Wilhelm Reich

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Wilhelm Reich (1897–1957) foi um psiquiatra e psicanalista austríaco-americano.

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_Reich

Reich X FreudEditar

São muitos os temas que colocaram Reich em rota de colisão com Freud, aliás, desde sua adesão à psicanálise, quando retoma a teoria da libido, já um tanto abandonada, e busca investigá-la enquanto energia biológica concreta, passível mesmo de ser mensurada. Esse é o primeiro passo de muitos na direção de uma terapêutica que visa conciliar o quantitativo da medicina com o qualitativo da psicologia e que coloca a realização genital no centro das preocupações clínicas. Fora do campo clínico, porém, não dissociado dele, há toda a controvérsia envolvendo a militância política de Reich e sua filiação ao partido comunista, considerado por muitos o grande ponto de atrito entre ele e seu mestre.

(...)

Reich parte para a contestação da teoria cultural de Freud, tendo como alvo suas duas pilastras centrais: a universalidade do complexo de Édipo e a pulsão de morte.

No primeiro caso, vai buscar no materialismo histórico de Marx e Engels a base teórica necessária para refutar a concepção estática acerca da família e a moral presentes na visão freudiana, afirmando que tanto uma como outra transformam-se de acordo com os modos de produção historicamente estabelecidos. A família patriarcal burguesa não é a versão final e acabada da organização familiar.

Nessa mesma direção, busca nas pesquisas antropológicas de Malinowsky a prova empírica da existência de culturas não repressivas nas quais desenvolvem-se outros modelos familiares. Com isso, Reich mostra que o triângulo familiar no qual se dá o complexo edípico não é um estruturante universal, mas tão somente uma formação própria da sociedade patriarcal-autoritária, passível, portanto, de ser transformada.

No segundo caso, tomando por referência suas experiências clínicas, em especial o trabalho com masoquistas, Reich procura mostrar que as manifestações, descritas por Freud como primárias e que pareciam contrariar o princípio de prazer, remontavam à uma forma específica de angústia de orgasmo. O masoquista não busca o desprazer. Ele apenas não consegue viver o prazer na medida em que a angústia se interpõe entre a pulsão e seu objetivo, fazendo com que o prazer seja sentido como perigo antecipado. Não se trata, portanto, de pulsão, mas de uma formação secundária, resultante da ação da cultura repressiva e, por essa razão, desfiguradas de sua natureza original. Reich tem na natureza o grande modelo de referência para sua concepção de vida. As forças naturais (por exemplo, as pulsões) trabalham pela e para a vida, jamais contra ela, sendo, portanto, incompatíveis com a destrutividade que Freud lhes atribui. E mais, são racionais e sociais, conferindo à vida essas mesmas propriedades. O mal, portanto, não tem sua origem na natureza, mas em outro campo, o campo da cultura, dos homens-em-relação. Quando a cultura se opõe à natureza de modo sistemático, acaba por degenerar suas forças, transformando-as em anti-naturais, portanto, irracionais e anti-sociais, causando, agora sim, destruição e sofrimento, como no caso do impulso masoquista. Reich recorre à imagem de um rio que, uma vez obstruído em seu leito normal, transborda em suas margens, destruindo todo o que encontra à sua volta. É o que ocorre com a civilização racionalista/mecanicista, que assume sua forma mais elaborada na sociedade capitalista burguesa. Isso, porém, não se restringe ao capitalismo. Toda forma de organização humana que se constituir contra a natureza desembocará na mesma tragédia humana de sofrimento e destruição que vivemos sob o signo do capitalismo (crítica que Reich acaba estendendo ao regime soviético). Podemos, assim, estabelecer um paralelo entre as idéias acima expostas e duas importantes matrizes filosóficas.

A concepção freudiana de natureza e sua eterna desconfiança do indivíduo enquanto portador de tendências anti-sociais, coloca Freud muito próximo do pessimismo hobbesiano da guerra de todos contra todos em que "o homem é o lobo do homem". Freud reproduz o modelo cultura versus natureza, conferindo à primeira o papel de "corrigir" a segunda em suas características egoístas e perigosas, garantindo que os interesses racionais (um atributo da cultura) se imponham e assegurem a sociabilidade humana (mesmo que a partir da idéia de pulsão de morte sempre instável). Por outro lado, parece inequívoca a identificação de Reich com a vertente romântica de Rousseau, na medida em que toma a natureza como modelo para a vida e para o social, não somente fazendo o resgate positivo daquilo que lhe é próprio - como as paixões - como ainda conferindo-lhe características pouco comuns - como racionalidade e sociabilidade. É exatamente esse romantismo rousseauniano que leva Reich a fazer a crítica da cultura racionalista - da qual Freud é, para ele, um representante - que condena às paixões como "vilãs" do mundo social, porque instáveis demais para garantirem a confiança mútua dos homens, e, portanto, da política. Se o modelo político racionalista desconfia da natureza humana, sempre traiçoeira, propondo, por isso, sua dominação, Reich procura mostrar que é exatamente essa dominação que institui a degeneração da natureza humana, transformando-a em seu exato oposto (aquilo que tanto assusta os racionalistas): o que era racionalidade, torna-se irracionalidade; o que era prazer, torna-se desprazer; o que era sociabilidade torna-se destrutividade social, crimes e guerras. Reich aposta no modelo natureza e cultura, afirmando que essas categorias se opõe somente quando a segunda se impõe à primeira. É preciso uma cultura capaz de dar livre fluxo à natureza humana, única maneira de se edificar uma sociedade realmente racional (e não racionalista), saudável, justa e livre. Sendo já a própria natureza racional e social, nada há a temer. É nessa direção que Reich elabora uma teoria da sociabilidade denominada "democracia natural do trabalho".

Assim, antes de mais nada, são duas grandes matrizes filosóficas, a hobbesiana e a rousseauniana, que colocam Freud e Reich em campos opostos em tantos temas. Defender a realização das pulsões, apostar numa sexualidade natural, introduzir o corpo no setting terapêutico e postular uma sociedade mais saudável e livre, implicava, da parte de Reich, combater a matriz hobbesiana presente na teoria cultural de Freud e, assim, contrapor-se à uma concepção filosófica racionalista que vê a cultura como uma elevação moral frente à barbárie da natureza e propõe a dominação das paixões humanas como condição para a sociabilidade e a política.

É certo que essas duas matrizes revelam diferentes e mesmo divergentes "concepções de mundo", o que, no limite, diz respeito à maneira como cada autor relaciona-se com a vida e suas experiências. Simplesmente o modelo reichiano não podia ser concebido por Freud. E vice-versa.

André Valente de Barros Barreto - Cientista social, mestre em ciência política e terapeuta corporal neo-reichiano. Assessor de ONG's na área de relações de poder. Autor de "A revolução das paixões: os fundamentos da psicologia política de Wilhelm Reich", ed. Annablume/FAPESP e "Reich: natureza e liberdade", Col. Logos, ed. Moderna (ambos no prelo).


Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/psicanalise/psique10.htm

SITESEditar

http://www.comciencia.br/reportagens/psicanalise/psique10.htm


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