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Ex-delegado explica o surgimento do crime organizado no Brasil


Relato feito por Sérgio Guerra, ex-delegado dos anos 70 e 80, que demonstra o cenário que acompanhou o surgimento do crime organizado no Brasil instaurado com o desmantelamento do Regime Militar:


O início da marginalidade: Polícia, exército, empresários, banqueiros, fazendeiros, políticos, contraventores, etc.


A Delegacia de Roubos e Furtos e o DOPS, da Polícia Civil, tinham as melhores equipes para atuar no combate à esquerda, pelo conhecimento adquirido com investigação e espionagem de crimes comuns. Embora não estivessem hierarquicamente submetidos aos comandos militares, os dois organismos policiais acabaram sendo grandes fornecedores de quadros para o auxílio aos militares na repressão.

A comunidade de informações, no acirramento da guerra [...] estendeu seus braços também à contravenção - o jogo do bicho. Usava deste artifício fora da legalidade, aceito pela sociedade civil, para obter informações, arrecadar fundos e transitar na clandestinidade.

Somada à estrutura e aos instrumentos que advinham do aparato estatal, essa comunidade de informações contava ainda com apoio financeiro de alguns grandes empresários brasileiros.

[...] Também participavam dessas reuniões pessoas da área de informação da Vale, dos Correios e Telégrafos, da Universidade Federal, que davam apoio à repressão.

Mensalmente, eu e o secretário de Segurança do Espírito Santo íamos para o Rio de Janeiro participar das reuniões similares no 1º Batalhão da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita. Esse local ficou conhecido mundialmente como importante centro de tortura e eliminação de combatentes esquerdistas.

Paralelamente ao nosso grupo, funcionava [...] no Rio de Janeiro, no prédio da Polícia Federal, a sede de uma outra rede de informações [...], comandada pelo delegado Cláudio Barrouin Mello. [...] Era ele quem desviava as investigações dos atentados que pudessem ser atribuídos aos militares.

Em São Paulo, o líder da comunidade foi durante muito tempo o delegado Fleury, do DOPS, que também comandava o aparelho de tortura da rua Tutoia. [...] A eficiência de Fleury para ajudar os militares a dizimar a esquerda era tanta que ele acabou ficando mais forte que todo o aparato oficial da comunidade em São Paulo. [...] os militares não tinham experiência para combater a esquerda armada. Quem tinha éramos nós, que sabíamos investigar, fazer campana, tocaiar e matar. Nós, policiais civis. [...] Fomos provavelmente os dois delegados dessa época que mais matamos, tanto bandidos comuns quanto comunistas.

Em nome da segurança do Estado brasileiro, os membros da comunidade de informações podiam tudo: perseguir, grampear, investigar, julgar, condenar, interrogar, torturar, matar, desaparecer com o corpo [...] Tudo era permitido.

Quando foi preso, muito antes, ele peitou todo mundo e disse: "Olha, seu eu cair, cai todo mundo. Vou falar de todos e de tudo que aconteceu." Depois dessas ameaças, os militares arrumaram uma lei do dia para a noite. Ela foi criada para beneficiar o criminoso, e está em vigor até hoje [ Lei n. 5.941/73, que ficou conhecida como "Lei Fleury" ].

No final dos anos 1970, Fleury tinha se tornado um homem rico, desviando dinheiro dos empresários para sustentar ações clandestinas do regime militar.

No regime militar havia muito cassino clandestino. Bateli, ligado aos bicheiros Castor de Andrade, do Rio, e Ivo Noal, de São Paulo, sempre estava por trás deles.

Castor de Andrade (1926-1997) foi um dos mais poderosos bicheiros do Brasil. Transitava com desembaraço e prestígio pelo poder. No governo militar, diversos generais lhe dedicaram atenção especial. Era amigo de João Havelange, então presidente da Fifa, e do poderoso Boni, superintendente-geral da TV Globo, amizade que se estreitou em torno da Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.

Ivo Noal, desde sempre ligado ao jogo do bicho, foi um dos que mais arrecadaram para as operações clandestinas do delegado Fleury.

Eu estava no Rio e passei a integrar o esquadrão de ouro da Scuderie Le Cocq. Essa irmandade se alastrou por São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais. O coronel Perdigão pertencia a ela, e Sivuca [Guilherme Godinho Ferreira, delegado], que depois virou deputado, era um de seus membros mais conhecidos, tendo sido eleito usando o lema da associação: "Bandido bom é bandido morto".

[...] O grupo tinha tentáculos em setores influentes da sociedade - políticos, juízes, delegados -, que se uniam para tornar impunes suas ações [...]. O discurso ideológico de combate ao crime e a articulação entre os membros da Scuderie colocavam-nos acima das leis, e tudo era permitido.

[...] Os recursos que viabilizavam o pagamento da equipe de operações clandestinas vinham dos empresários que, em troca, eram beneficiados pelo regime militar. Dinheiro nunca faltava.

Eram dois os bancos que apoiavam nossas operações: O Mercantil de São Paulo e o Sudameris. [...] O dono do Mercantil era Gastão Eduardo Vidigal, mentor, arrecadador e financiador das nossas operações clandestinas.

O deputado capixaba Camilo Cola, dono da Viação Itapemirim, foi um grande apoiador das nossas ações clandestinas. [...] Muito próximo do coronel Perdigão, ele arrecadava recursos entre grandes empresas, como a Gasbrás e a White Martins, e levava em mãos para o coronel. Camilo Cola sempre contou com os préstimos do coronel Perdigão e do comandante Vieira. No início dos anos 1980 [...] ele procurou Perdigão para resolver um problema. [...] Eu estava meio acomodado, ganhando um bom dinheiro com o jogo do bicho. [...] Perdigão escalou uma equipe mista, com gente do Rio e de Minas, para dar um fim no jornalista. José Roberto Jeveaux havia patrocinado um livro sobre mim, O cana dura, redigido por Pedro Maia [...] Outro caso envolvendo Perdigão foi o assassinato de um político nordestino [...] Foi depois de 1985. Também um crime de mando, mas sem relação com Camilo Cola. O empresário, como arrecadador e financiador da repressão, recebia benefícios do regime militar. Ganhou várias concessões e sua empresa cresceu muito no período. Com o fim da ditadura, ele absorveu, na Viação Itapemirim, vários agentes que combateram a esquerda no Brasil. [...]

Os donos do Mappin [...] sempre ajudaram a combater a esquerda em São Paulo. [...] ele me procurou novamente. Veio falar do Mappin, que já estava com problemas de insolvência. Os donos, Alberto e Cosette Alvez, queriam que a comunidade ajudasse, pois a questão envolvia empresas [...] abertas no exterior [...]. Eles tinham medo de perder os bens; queriam passar tudo para o nome de terceiros. [...] No tempo dos militares, eles financiavam as operações de Fleury. [...] Diziam-se amigos do presidente Figueiredo, frequentador de seu iate e de seu helicóptero. Isso foi na segunda metade dos anos 80.

[...] também recebi 50 submetralhadoras, ainda nas caixas, estalando de novas, com o carimbo do Exército. Deveriam ser distribuídas para os fazendeiros de direita. [...] depois fui condenado a quatro anos de prisão por causa dessa operação. Foi no início dos anos 90, quando a jornalista Maria Nilce foi assassinada [...] descobri tudo, inclusive o envolvimento de famílias capixabas poderosas, e me enredei numa confusão. [...] Fiquei preso vários dias, até que chegou um indulto e fui solto.

Os coronéis queriam provocar mortes em conflitos de terra e gerar ambiente de insegurança que prejudicasse a abertura política. O plano era provocar derramamento de sangue, e culpar a esquerda.


A abertura democrática


Do final da década de 1970 até meados dos anos 1980, toda a estrutura montada para combater os nossos adversários começou a ser descontruída.

[...] Acostumados ao poder, grupos de oficiais das Forças Armadas, de policiais federais e civis resolveram agir por conta própria fora da cadeia de comando. Financiado por empresários e pela contravenção, que se beneficiavam de vantagens [...]

[...] Meu grupo era formado por policiais civis, muitos ainda na ativa, como Ricardo Wilke, que pertencia ao DGIE.

[Ricardo Wilke foi investigado na CPI do Narcotráfico da Câmara dos Deputados em 2000 e chegou a ser preso logo após seu depoimento no Rio de Janeiro]

Mais tarde, no Espírito Santo, numa propriedade em Cariacica [...] eu preparava policiais para o Grupo de Operações Especiais da polícia civil - GOE -, uma tropa de elite para combater o crime criada no governo Max Mauro.

[...] Esses meus companheiros se envolveriam depois numa ação policial famosa e polêmica com a Falange Vermelha. [...] A Falange, a primeira organização criminosa do Rio, que se transformou depois no Comando Vermelho, aprendeu a luta armada urbana com os presos políticos, na Ilha Grande. Vejam como as coisas foram se misturando com o tempo!

O processo de abertura política lenta e gradual implantado pelo general Ernesto Geisel acabou gerando desconforto nas nossas bases. [...] o que fazer com as dezenas de operadores que serviram ao estado durante os anos de repressão?

A anistia ampla e irrestrita nos absolveu sumariamente dos crimes praticados, mas como o nosso grupo passaria a sobreviver? Nós, que éramos proprietários de uma enorme quantidade de armamentos e conhecedores de tantos segredos?

Alguns, que se escondiam sob falsas identidades, acabaram incorporadas à própria máquina governamental. Viraram servidores públicos. Outros tiveram sorte diferente. É nesse contexto que o pessoal responsável pelas operações mais perigosas foi absorvido em outras organizações, a maioria relacionada à contravenção.

A decadência dos aparelhos de combate ao comunismo coincide com o crescimento de organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas, à formação de milícias e principalmente ao jogo do bicho. O know-how conquistado com o aparato do Estado agora serviria ao submundo do crime organizado.

[...] a maneira encontrada para me bancar nesse novo contexto foi viabilizar a minha entrada no jogo. O coronel Perdigão me levou para o esquema. Fui apresentado a Castor de Andrade, que era o chefe dos bicheiros, o mais importante de todos. [...] A relação entre Castor e as forças armadas era tão próxima que ele tinha até uma credencial do Cenimar. Ele gostava de usá-la para dizer que era agente, oficial da reserva. Ele era atrevido. Mas existia, de fato, colaboração entre o SNI e o jogo.

Quando o regime abriu, mesmo depois que acabou o SNI, continuei a ajudar clandestinamente as polícias de São Paulo e do Rio [...]

Os anos 1980 já iam adiantados e o nosso poder, clandestino - e, ao mesmo tempo, aqui e ali, oficial -, ia se esvaindo. [...] A comunidade de informações vinha sendo desmantelada e nós, a ponta operacional, aquela que era envolvida por uma aura de comentários temerosos, começávamos a procurar nossos próprios caminhos.

O tenente Odilon Carlos de Souza [...] foi mandado pelo Exército para o Espírito Santo, sob a orientação do SNI, para, entre outras missões, executar o contraventor Jonhatas Bulamarques, que estava pedindo favores e chantageando coronéis do Exército.

Passei vários anos na cadeia por conta do assassinato de Bulamarques [...] fiquei quieto todos esses anos em nome da minha fidelidade ao regime militar.

[...] O trabalho de escolta que prestávamos para as autoridades militares na época do regime militar passou a ser feito para particulares por meio dessa empresa.

Boa parte do financiamento da nossa irmandade nessa época vinha do jogo, mas não só dele: havia a colaboração de muitos empresários simpáticos ao tipo de serviço que nós oferecíamos. Nessa época, então, arrecadar recursos com os empresários era uma tarefa exclusiva do Perdigão e do Vieira. Fomos financiados por esse esquema durante muitos anos, mesmo após a redemocratização. Só deixei de receber da comunidade quando já estava preso em Vila Velha (ES), entre 1995 e 1996.

[...] Acabou a revolução, mas a irmandade continuou. A irmandade ainda existe [...] os caras ainda servem uns aos outros. Eu continuei, continuou todo mundo.


Trechos do livro “Memórias de uma Guerra Suja”, 2012, editora TopBooks.


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